Arquivo mensal: junho 2012

A luta

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Criança sempre me encantou.
Um anjinho que acabou de chegar do céu. Mais puro, mais inocente e mais verdadeiro.
Sorri com a mais simples brincadeira, com a chegada de alguém especial ou com um abraço carinhoso.

Sempre tive medo da velhice.
Tornar-me dependente e viver esperando a hora da morte assustava-me.
Viver o tempo necessário e de maneira plena e feliz – era a minha meta.

Foi aí que minhas teorias mudaram.
Esse desdém com a velhice começou a me irritar.
Entendi que velhice é também uma fase da vida.
Na infância, a gente brinca, ri e se diverte despreocupadamente.
Na adolescência, a gente chora, briga, se descabela e não entende nada, mas quer ser igual a todo mundo.
Na idade adulta, a gente tenta realizar todos os projetos de vida.  Corre contra o tempo para dar conta de tudo e reclama de cada coisinha que não saiu como esperávamos.
Já a velhice, é o tempo de respirar. De colher os frutos de tudo aquilo que foi plantado durante anos.
De relembrar cada momento feliz que se viveu e orgulhar-se – mesmo que sozinha – de ter superado todos os obstáculos que insistiam em aparecer no nosso caminho.
É tempo de rever as coisas e concluí-las. De passar adiante tudo o que levou-se tempo para aprender.
Tempo de tentar diminuir dores alheias. De sorrir sossegado, porque não há nada que se esperar a não ser um café da manhã quentinho com um céu azul e o último capítulo da novela.
Acho que nunca seremos tão tranquilos e realizados senão na velhice.
Mas, claro, até chegar lá vai tempo, luta, coragem, sofrimento e aprendizado. E é por isso que ninguém é tão sábio e tão admirável quanto um idoso.
Ele percorreu um longo caminho até chegar onde está e deve orgulhar-se disso.
Como deve ser bom ter a consciência tranquila, o sossego no coração e a respiração aliviada por ter feito tudo o que podia ser feito e não ter mais nada a fazer que não seja: ser feliz.
(E é claro que tudo isso depende do que foi feito da sua vida durante esses anos – não é fácil ter a consciência tranquila e passar uma velhice amargurando o passado deve ser a pior das infelicidades.)

Conheci uma velhinha que aos 90 anos dava-me lições de vida e contava-me de todos os seus amores e desamores.
Não teve filhos. Seu marido morreu e todos os outros familiares também.
Ela estava há 20 anos sozinha, internada numa clínica e – como ela mesma dizia – seu único problema era a visão reduzida. Tinha saúde para dar e vender!
Ela não tinha ninguém. Sua aposentadoria era toda para pagar a clínica. Passava todos os dias lá, comia, dormia e via televisão. Conversava com alguns velhinhos que ainda eram lúcidos e não tinha o que esperar, nem mesmo a visita de um parente, como a maioria dos idosos internados.
Mas, dizia-me ela, que o que importava era ser feliz!
Sorriso no rosto, abraço apertado e olhos brilhando. Ela era feliz.
Dava e recebia amor como uma criança. Tinha experiência com seus 90 anos. Parecia jovem com toda aquela felicidade.
Pensei que apesar de ela não estar no melhor lugar do mundo, ela tinha o direito – e o dever – de aproveitar seu fim de vida como continuação da vida digna que teve.
E ela merecia ser cuidada, respeitada e admirada.

Infelizmente, quando a idade chega os problemas de saúde aparecem. Torna-se dependente, como uma criança, e deve ser cuidada como uma, que pode nos ensinar muito.
É como se devessemos isso aos idosos.
Eles que já passaram da nossa fase sofrida e agora merecem respirar em paz.
Se fosse dada mais atenção a essas pequenas criaturas abatidas pelo tempo, mas com uma visão única do tempo e da vida, seríamos seres mais sábios e teríamos nossa velhice realizada e respeitada também.
E mesmo aqueles que não conseguem nos ensinar, porque a saúde foi-lhe ingrata e vive hoje de outra forma, também merece respeito e amor, porque são humanos. Porque são um de nós. Porque terão sentimentos até o fim da vida.

Luto por respeito.
Respeito por cada momento da vida.
Cada fase, com sua dimensão, deve ser vivida intensamente e respeitada por todos nós.
Respeitar o ser humano, que é humano até que o coração pare de funcionar.

Agradeço a todos os velhinhos que já passaram por minha vida.
Agredeço a todos os velhinhos que continuam lutando por um dia feliz.
E desculpo-me, em nome do mundo, por vocês não serem tratados como deveriam.
Vocês são incríveis por terem chegado até aqui, eu mesmo não sei se vou aguentar.
Mas lutarei, até quando for-me possível, para dar mais um dia de felicidade para cada um de vocês.
Lutarei por um sorriso no rosto em meio a tantas marcas do passado.

Faço isso por mim, por vocês e por todos aqueles que se foram, e que eu daria tudo para passar mais uma tarde conversando e sorrindo diante de tanta sabedoria.

E com o maior amor do mundo,
dedico essa luta à minha avó.
Que de tanto dar-me a mão e esperar meu carinho, aparece em cada sorriso de um idoso me dando força para continuar trilhando o meu caminho, mesmo com a falta que ela faz.

 

Livia Galhardi.

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